Em um mundo que busca cada vez mais por diversidade e acolhimento, a palestra do psiquiatra e psicoterapeuta Bernardo Rahe no evento Neuro 2026 trouxe um olhar profundo sobre a relação entre preconceito e saúde mental. Com uma carreira voltada ao atendimento de pessoas transgênero, Rahe abordou como a contínua exposição ao estresse pode causar danos neurológicos significativos, especialmente em grupos marginalizados.
De acordo com o especialista, a interseção entre diferença e preconceito resulta em uma série de experiências negativas. Ele listou os principais fatores que afetam as pessoas que enfrentam discriminação: o estigma, que rotula e associa indivíduos a estereótipos; a discriminação, que gera desigualdade no tratamento; o bullying, que perpetua a vitimização; a rejeição, que separa as pessoas de um sentido de pertencimento; e as barreiras, que dificultam o acesso e a participação plena na sociedade. “Mesmo episódios breves de discriminação podem deixar marcas duradouras”, alertou Rahe, ressaltando a importância de ouvir as experiências vividas dos pacientes, que podem contribuir para a construção do conhecimento científico.
Durante sua apresentação, Rahe detalhou as consequências do estresse ligado ao preconceito, que se dividem em estressores externos, como discriminação e violência, e processos internos, como a expectativa de rejeição e o estigma internalizado. Esses fatores podem levar a desfechos como ansiedade, depressão e exaustão, além de dificultar a busca por ajuda. Um conceito relevante abordado foi o “masking”, ou camuflagem, que refere-se ao esforço invisível que muitos fazem para se adaptar e se sentir aceitos, mas que pode resultar em um alto custo emocional.
O psiquiatra também destacou a discrepância entre a prevalência do Transtorno do Espectro Autista (TEA) na população geral, que varia de 1% a 2%, e entre indivíduos com disforia de gênero, onde esse percentual sobe para 11%. Rahe explicou como as pessoas neurodivergentes enfrentam barreiras sensoriais e comunicação inadequada, enquanto a população LGBTQIA+ lida constantemente com a rejeição e a invalidação identitária dentro de um sistema que privilegia a cisheteronormatividade.
Em sua conclusão, Rahe enfatizou que a superação não reside em minimizar as diferenças, mas em impedir que estas sejam vistas como um valor inferior. Ele propôs uma “via de proteção”, que envolve escuta ativa, promoção de identidades positivas, adaptações e acessibilidade. O futuro de uma sociedade verdadeiramente inclusiva depende da nossa capacidade de acolher a diversidade como um valor intrínseco, e não como um obstáculo.




