quarta-feira, 28/10/2026

Reflexões sobre os desafios do SUS à luz da crise no sistema de saúde britânico: a necessidade de uma abordagem mais colaborativa.

A criação do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, em grande parte, foi moldada por experiências internacionais, entre elas a do National Health Service (NHS) do Reino Unido. A médica Ana Luíza Gibertoni…

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A criação do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, em grande parte, foi moldada por experiências internacionais, entre elas a do National Health Service (NHS) do Reino Unido. A médica Ana Luíza Gibertoni Cruz, que vive essa realidade em ambos os países, destaca as semelhanças e diferenças que caracterizam esses sistemas de saúde pública. Formada no Brasil e agora atuando em Oxford, ela observa que o NHS, apesar de ser um modelo de referência, enfrenta sérias crises que também podem servir de alerta para o Brasil.

Atualmente, o NHS está imerso em um ciclo de dificuldades, exacerbadas por uma combinação de baixo investimento ao longo dos anos e uma população que está vivendo mais, mas frequentemente com doenças crônicas. Com a expectativa de vida em alta, o sistema britânico se vê pressionado a reformular suas estratégias, como evidenciado no plano de dez anos anunciado em 2025, que visa descentralizar atendimentos, acelerar a digitalização e focar na prevenção.

Os desafios enfrentados pelo NHS, como longas filas de espera e desigualdades regionais, ecoam as questões que o SUS ainda precisa resolver. Embora ambos os sistemas tenham o objetivo de garantir acesso universal à saúde, as disparidades no atendimento são evidentes. No Reino Unido, por exemplo, as longas esperas por atendimento variam drasticamente entre regiões, o que também é uma realidade no Brasil, onde a distribuição de recursos é desigual e a população é três vezes maior.

A desigualdade no acesso ao atendimento é uma questão crítica. Ana Luíza relata que, em sua experiência em Oxford, a diferença de recursos entre regiões é palpável. Enquanto algumas áreas têm acesso a serviços eficientes, outras enfrentam sérias limitações. Esse fenômeno se reflete em ambos os sistemas, onde o acesso a serviços de saúde pode ser drasticamente diferente dependendo da localização geográfica.

A atenção primária é um aspecto central em ambos os modelos, com o NHS contando com médicos generalistas (GPs) como porta de entrada para o sistema. No Brasil, o SUS tentou implementar Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) para atender a demanda. No entanto, as UPAs e as Unidades de Avaliação Aguda (AAUs) do NHS apresentam diferenças em sua estrutura e funcionamento, refletindo as particularidades de cada sistema. A médica Maitê Gadelha, que também vivenciou os dois modelos, ressalta que o desafio brasileiro é ainda maior devido à vasta extensão territorial e à desigualdade no financiamento.

Enquanto o Brasil é elogiado por sua Estratégia Saúde da Família, que integra cuidados comunitários, a verdadeira regionalização e autonomia para gestores locais ainda precisam ser desenvolvidas. O plano britânico de 2025, que aposta em serviços de saúde mais próximos da comunidade, pode oferecer uma lição valiosa para o Brasil.

Além disso, o Brasil enfrenta um desafio específico na distribuição de médicos. Apesar do número crescente de formados, a concentração em regiões mais desenvolvidas impede um atendimento equitativo. A experiência do NHS em reter profissionais de saúde pode ser uma referência para o SUS, que lida com alta rotatividade e estresse entre os trabalhadores da saúde.

O envelhecimento da população é uma preocupação compartilhada, onde a integração entre saúde e assistência social se torna cada vez mais necessária. Ana Luíza menciona a importância de serviços de cuidados domiciliares no Reino Unido, que podem servir de modelo para o Brasil, onde o cuidado preventivo e a assistência social são frequentemente negligenciados.

Por fim, a gestão financeira é um dos pilares para a reforma de ambos os sistemas. O Brasil investe significativamente menos em saúde por habitante do que o Reino Unido, e a complexidade da gestão federativa dificulta a alocação eficiente de recursos. A experiência britânica sugere que não basta aumentar o gasto, mas é crucial reorganizar como e onde o dinheiro é aplicado para garantir que as reformas sejam efetivas. A transformação dos sistemas de saúde requer tempo, planejamento e, acima de tudo, um compromisso sério com a implementação das políticas necessárias.